26/02/2026

“Homens Invisíveis”, de Fernando Braga, retorna em nova edição

“Homens Invisíveis”, de Fernando Braga, retorna em nova edição e reafirma a literatura como gesto de escuta, consciência e transformação

Acaba de sair da gráfica a nova edição de Homens Invisíveis: Relatos de uma humilhação social, obra incontornável do psicólogo e pesquisador Fernando Braga. A obra trata-se de um testemunho humano profundo sobre um dos fenômenos mais persistentes e perturbadores da vida social brasileira: a invisibilidade daqueles que sustentam o cotidiano das cidades e, ainda assim, permanecem sem reconhecimento.

Publicado pela Farol das Letras, o livro retorna ao público após mais de uma década fora de catálogo, reafirmando sua urgência. “Reeditar este livro é também reconhecer que certas narrativas, assim como certos trabalhadores, atravessam longos períodos de silêncio e apagamento. Sua ausência editorial ecoa o tema que investiga: aquilo que é essencial pode, muitas vezes, permanecer à margem do olhar público. Esta nova edição representa, portanto, um gesto de retorno, escuta e compromisso com a dignidade das vidas e das histórias que não devem permanecer invisíveis.” Destaca a nota editorial.

A obra nasce da experiência radical vivida por Fernando Braga ao trabalhar, durante anos, como gari na Universidade de São Paulo. Dessa convivência emergiu não apenas uma pesquisa acadêmica, mas uma narrativa viva, capaz de deslocar profundamente o olhar do leitor sobre o trabalho, a dignidade e a ideia de humanidade.

No texto de apresentação, o professor Gustavo Martineli Massola destaca a singularidade e a permanência da obra, observando que sua força reside justamente em apresentar o fenômeno em sua concretude humana. Ao registrar, com rigor e sensibilidade, o sofrimento e a existência daqueles tornados invisíveis, o livro ultrapassa as fronteiras disciplinares e se estabelece como documento histórico, literário e ético — um retrato necessário do Brasil e uma fonte duradoura de reflexão sobre desigualdade, dignidade e reconhecimento.

A psicanalista Giselle Siedschlag, que assina um dos textos de abertura, reforça a potência transformadora da obra ao afirmar que suas páginas “nos levam a enxergar com mais acuidade o mundo de fora, mas sobretudo, o mundo de dentro de cada um de nós”. Sua leitura evidencia que Homens Invisíveis não apenas revela uma realidade social, mas provoca um deslocamento íntimo e irreversível em quem se permite atravessá-lo.

Entre as vozes que acompanham o livro está também a escritora e jornalista Eliane Brum, que define a obra como uma experiência perturbadora e necessária, capaz de nos devolver a imagem de nossa própria participação — consciente ou não — nas engrenagens da invisibilidade social.


Literatura como resistência: a live histórica no Dia do Gari

A publicação desta nova edição vem sendo planejada desde 2024 e rememoramos um momento simbólico e comovente: a live realizada em 16 de maio de 2025, Dia do Gari, promovida pela Farol das Letras em parceria com o Instituto Rubem Alves, no PodCast Sinais do Mundo. Na ocasião, não houve celebração. Houve resistência. Em vez de comemorar, o encontro trouxe à tona aquilo que a data frequentemente encobre: a persistência da humilhação, da invisibilidade e da desigualdade.

Conduzida por Marcela Comelato e Maria Amélia Moscom, a conversa revelou, na própria voz de Fernando Braga, a dimensão existencial de sua experiência. Em um depoimento visceral, ele recorda o impacto de tornar-se invisível ao vestir o uniforme de gari — de deixar de ser cumprimentado, reconhecido, visto — e de compreender, na própria pele, que a invisibilidade não é metáfora, mas uma realidade concreta e cotidiana.

Mais do que uma pesquisa, tratava-se de uma travessia humana irreversível.

O impacto desse encontro reverberou profundamente nos espectadores. Como escreveu Zé Lima Jr., após assistir à transmissão:

“Acabei de assistir esse vídeo excelente. Com a condução inteligente e firme de Marcela e Maria Amélia fomos acompanhando o depoimento lúcido e emocionado do Fernando. Sua trajetória é, com efeito, SINAL imprescindível para a luta por uma sociedade VISIVELMENTE justa e fraterna — quando outras formas de trabalho vierem a ter a devida dignidade.”

A live, fruto da parceria entre o Instituto Rubem Alves e a Farol das Letras, reafirma o compromisso de ambas as instituições com o papel da literatura como elemento fundamental de escuta do mundo e como espaço de construção do que há de mais humano em nós.


Um livro necessário para o nosso tempo

Homens Invisíveis não é um livro restrito ao campo acadêmico.

É uma obra para todos.

Para quem deseja compreender o Brasil.
Para quem acredita na equidade.
Para quem reconhece que nenhuma sociedade será verdadeiramente justa enquanto parte de seus próprios sustentáculos permanecer invisível.

Este livro é, sobretudo, um gesto de devolução.

De voz.
De rosto.
De humanidade.

E um convite inadiável: aprender, finalmente, a ver.